O ensino gratuito não existe

Saiu no Público de hoje:

O Estado português gasta em média cinco mil euros por ano com cada aluno no ensino público. Significativamente mais do que aquilo que paga por cada aluno nas escolas com contrato de associação. Porquê então acabar com estes contratos? Por razões ideológicas.

Aliás, em matéria de ensino, os governos portugueses optam quase invariavelmente pela ideologia, em detrimento da qualidade e da liberdade: para combater a Igreja Católica, a I República encerrou as melhores escolas de Portugal e prendeu e exilou os mais reputados professores da época, os jesuítas. O Estado Novo desconfiava politicamente das escolas privadas e não apenas das estrangeiras, como o Liceu Francês – basta pensar que só no fim dos anos 60 foi autorizada a criação da Universidade Católica em Portugal -, e menos ainda acreditava na qualidade do seu trabalho. De 1974 até agora o investimento no ensino tem sido sinónimo de investimento na rede pública. Não porque esta apresente melhores resultados ou saia mais barata, mas simplesmente porque os governos não abdicam das vantagens políticas do controlo sobre a imensa máquina que se estende a partir da 5 de Outubro.
Claro que, em contrapartida, cada governo já sabe que terá pela frente as guerras dos sindicatos e as idiossincrasias dos professores, mas tudo isso será compensado pela certeza de que, em milhares de salas de aula, milhares de crianças terão como matéria lectiva a última moda ideológica governamental e que haverá sempre espaço para colocar boys nas direcções regionais. Igualmente assegurada está aplateia infanto-juvenil para que a ministra do momento, à semelhança do que tem feito Isabel Alçada, use as visitas as escolas para fazer prelecções sobre as maldades da oposição.
Para aniquilar o ensino privado procura agora reduzir-se o número de pessoas que a ele recorrem, obrigando as famílias que fazem essa opção a pagar duas vezes: uma através dos impostos que mantêm de pé a rede pública onde alegadamente os seus filhos têm vaga e outra através das mensalidades no privado. Mas mesmo que todos os alunos que frequentam o privado tivessem vaga no ensino público, e não é verdade que tenham, o Estado não deve ter o direito de condicionar as famílias a optar pelo público ou pelo privado. Deve sim assegurar à escola escolhida pelas famílias a verba que disponibiliza em média por aluno. No fim ganharemos todos. No público e no privado, pois a qualidade é indissociável da liberdade de escolha. E como é óbvio em nenhum destes locais o ensino é gratuito. Antes pelo contrário em todos eles, públicos e privados, pagamo-lo e bem caro.
O que está em causa neste final de 2010, em que o Governo anuncia o fim dos contratos de associação com várias escolas privadas, é tão-só o seguinte: em Portugal existe escolaridade obrigatória ou obrigatoriedade de frequentar o ensino público? Para início de conversa tudo seria mais claro se as escolas públicas, tal como as privadas, entregassem a cada aluno um talão com o valor da respectiva mensalidade. É que a quimera do gratuito custa-nos muito dinheiro e gasta-nos a paciência.

*PÚBLICO

Um trecho do Pai Goriot

Eugênio Rastignac é um moço ambicioso. Vive numa casa de cômodos, onde conhece o Sr. Vautrin, que lhe dá preciosos conselhos para sua ascensão social, todos com o mesmo objetivo: arranjar um casamento nobre. Porém, tem ele um obstáculo: falta-lhe o capital básico para arranjar esse casamento, pois mesmo para dar o golpe do baú é preciso ter algum dinheiro. A solução que encontra é aproximar-se de um outro morador da pensão: o Pai Goriot. Trata-se de um antigo comerciante, que enriqueceu tremendamente com a especulação de trigo em tempos de crise. Agora, velho, é um homem que vive só, abandonado e humilhado pelas filhas, genros e serviçais. Todo seu dinheiro é usado para manter as filhas na aparência de nobreza que têm. Rastignac procura se tornar amante de uma das filhas de Goriot, a Baronesa Nucingen. Os conselhos do Sr. Vautrin fazem toda a diferença, e desvelam, à la Balzac, os desvãos da alma humana, muito corrompida pela modernidade. A certo momento, dá-lhe o seguinte conselho, uma verdadeira pérola da canalhice: “Uma fortuna rápida é o objetivo de cinquenta mil rapazes que se acham na mesma situação que você. Você é apenas uma unidade neste número. Avalie os esforços que terá de fazer e a ferocidade do combate. Como não há cinquenta mil bons lugares, vocês terão que devorar-se uns aos outros, como aranhas num frasco. Sabe como se faz uma carreira aqui? Pelo brilho da inteligência ou pela habilidade da corrupção. Eh preciso penetrar nessa massa humana como uma bala de canhão, ou insinuar-se no meio dela como uma peste. A honestidade não serve para nada. Todos se curvam sob o poder do gênio. Odeiam-no, tratam de caluniá-lo, por que ele recebe sem partilhar. mAS curvam-se se ele persiste. Numa palavra, adoram-no de joelhos quando não o puderam enterrar na lama. A corrupção representa uma força por que o talento é raro. Assim como a corrupção é a lama da mediocirdade que abunda, e você sentirá sua picada por toda a parte. Verá mulheres cujos maridos só têm seis mil francos de vencimentos, gastarem mais de dez mil em vestidos. Verá empregados de mil e duzentos francos comprarem terras. Verá mulheres se prostituirem para passear em carruagens dos filhos dos pares de França, que podem correr Longchamps pela avenida do centro. Você viu esse pobre animal do pai de Goriot obrigado a pagar a letra de câmbio endossada pela filha, cujo marido tem cinquenta mil francos de renda. Aposto minha cabeça contra esse pé de alface que você encontrará um vespeiro na casa da primeira mulher que lhe agradar, mesmo que seja rica, bela e jovem. Todas elas vivem procurando iludir as leis, em guerra com os maridos a propósito de tudo. Eu não acabaria mais de falar se fosse preciso explicar-lhe os negócios indecorosos que se fazem por amantes, por vestidos, pelos filhos, pelo lar ou pela vaidade, raramente por virtude, pode estar certo. Assim, o homem honesto é o inimigo comum. Mas que pensa você que seja um homem honesto? Em Paris, o homem honesto é aquele que se cala e se recusa a partilhar. Não falo desse pobres idiotas que em toda a parte cumprem seu dever sem jamais serem recompensados por seus trabalhos, e que eu denomino a Santa Confraria dos Sapatos Velhos de Deus. É certo que neles reside a virtude em todo o esplendor de sua estupidez, mas neles também reside a miséria. Já estou vendo as caretas dessas honradas pessoas se Deus nos fizesse brincadeira de mau gosto de não comparecer no Juízo Final. Portanto, se você quiser obter fortuna imediatamente, é preciso já ser rico ou parecê-lo.”

20 paradoxos de Oscar Wilde

Oscar Wilde 1: ”Posso resistir a tudo, menos às tentações.” - Lorde Darlington na peça O leque de lady Windermere (1892);

Oscar Wilde 2: ”As pessoas deveriam estar sempre apaixonadas. É por isso que nunca deveriam se casar.” - Lorde Illingworth na peçaUma mulher sem importância (1893);

Oscar Wilde 3: ”A função do artista é inventar, não reproduzir a realidade.” - Trecho de carta endereçada ao editor da St. James Gazette, em 26 de junho de 1890, em defesa ao romance Dorian Gray;

Oscar Wilde 4: ”É sempre com as melhores intenções que se faz o pior.” - Gilbert em O Crítico como Artista (1891);

Oscar Wilde 5: ”Sempre passo adiante os bons conselhos. É a única coisa a ser feita. Eles nunca servem para nós mesmos.” - Lorde Goring na peça Um marido ideal (1895);

Oscar Wilde 6: ”A conversa deve passar por tudo e não se concentrar em nada.” - Gilbert em O Crítico como Artista (1891);

Oscar Wilde 7: ”Toda vez que alguém faz algo realmente estúpido, é sempre pelos motivos mais nobres.” - Lorde Henry em O retrato de Dorian Gray (1890);

Oscar Wilde 8: ”Experiência é simplesmente o nome que os homens dão aos seus erros.” - Príncipe Maralofiski na peça Vera ou os niilistas(1880);

Oscar Wilde 9: ”A felicidade de um homem casado depende das pessoas com quem não se casou.” - Lorde Illingworth na peça Uma mulher sem importância (1893);

Oscar Wilde 10: ”A fidelidade é para a vida emocional o mesmo que a coerência para a vida intelectual: mera admissão de fracasso.” - Lorde Henry em O retrato de Dorian Gray (1890);

Oscar Wilde 11: ”Só existe uma coisa no mundo pior do que falarem de nós: é não falarem.” - Lorde Henry em O retrato de Dorian Gray(1890);

Oscar Wilde 12: ”Só os fracos resistem à tentação.” - Citado em Small, I: 1993;

Oscar Wilde 13: ”Só os fúteis se conhecem a si mesmos.” - Frases e Filosofias para Uso dos Jovens (1894);

Oscar Wilde 14: ”Os homens se casam por cansaço. As mulheres por curiosidade. E todo mundo se desaponta.” - Lorde Henry em O retrato de Dorian Gray (1890);

Oscar Wilde 15: ”Nada mais glorioso do que a devoção de uma mulher casada - algo que o homem casado desconhece completamente.” - Cecil Graham na peça O leque de lady Windermere(1892);

Oscar Wilde 16: ”Atualmente temos tudo em comum com a América, exceto, é claro, a língua.” - O fantasma de Canterville (1887);

Oscar Wilde 17: ”Não tenho medo da morte. O que me aterroriza é a aproximação dela.” - Lorde Henry em O retrato de Dorian Gray(1890);

Oscar Wilde 18: ”A opinião pública se impõe apenas onde não há ideias.” -Algumas Máximas (1894);

Oscar Wilde 19: ”A poesia, como o cristal, deveria tornar a vida mais bonita e menos real.” - trecho de carta endereçada ao escritor W. Graham Robertson, no início de 1888;

Oscar Wilde 20: ”Prazer é o que recebemos dos outros. Obrigação, o que esperamos dos outros. E gênio, o que negamos nos outros.” - citado em Small, I: 1993.

Yes, These Are Orwellian Days My Friends

“A family 

with the wrong members in control; 

that, perhaps, 

is as near as one can come to describing

 England in a phrase.” 

George Orwell

A segunda história do nono dia do Decameron nos ensina muito, muito…

Sabereis, pois, que há na Lombardia um mosteiro muito famoso pela sua santidade e religião.

Entre outras freiras que ali se encontravam, contava-se uma juvenil dama de sangue nobre, e dotada de maravilhosa beleza.

Chamava-se Isabetta, e um dia em que seus pais tinham vindo vê-la ao locutório, trazendo em sua companhia um belo mancebo, a donzela apaixonou-se por ele.

Pela sua parte, o belo mancebo, vendo-a tão formosa, e lendo em seus olhos o que a dama desejava, sentiu-se igualmente inflamado em amor, e ambos sofreram por algum tempo em silêncio a sua paixão, sem obterem o menor resultado.

Finalmente, impelidos ambos pelo mesmo desejo, o mancebo encontrou meio de ver secretamente a sua querida freirinha, com o que ela ficou tão contente, que o obrigou a renovar as visitas com grande prazer de uma parte e outra.

Como esta hábil manobra continuasse, sucedeu ser visto o audacioso amante por algumas freiras. (…) Isabetta, não desconfiando disto e ignorando tudo, foi continuando nos seus amores, e mandou certa noite chamar o seu amante, o que souberam logo as que a andavam espreitando.

Quando julgaram chegada a ocasião, porquanto havia já decorrido uma boa parte da noite, dividiram-se em dois grupos, um dos quais ficou a fazer sentinela à porta da cela de Isabetta, e o outro correu ao quarto da abadessa, a bater-lhe à porta. Quando ela respondeu, uma das freiras disse-lhe:

- Venerável madre, venerável madre, levante-se depressa porque acabamos de descobrir que Isabetta tem um rapaz metido na sua cela.

Nessa mesma noite a abadessa estava em companhia de um padre, que introduzia muitas vezes no seu dormitório dentro de uma arca. Ouvindo toda esta bulha, e receando que as freiras por demasiada precipitação ou por maus desejos, empurrassem a porta, levantou-se precipitadamente, e vestiu-se o melhor que pôde. Imaginando pôr certo véu que as freiras trazem na cabeça, e que elas chamam psaltério, pegou nos calções do padre, e tamanha foi a sua pressa, que, sem dar por isso, ajeitou-os na cabeça em lugar do psaltério, e saiu do quarto, fechando cuidadosamente a porta e dizendo:

- Onde está essa maldita de Deus?

Boccaccio, Decâmeron, Vol. III. Tradução de Joaquim Lopes de Macedo, Via Rui Manuel Amaral, no seu Dias Feliezes.

Grafitti alien. Via Ovelha Elétrica.

Grafitti alien. Via Ovelha Elétrica.

Salva-se o Tâmega. Salve-se Amarante.

Salva-se o Tâmega. Salve-se Amarante.

Salva-se o Tâmega. Salve-se Amarante.

Salva-se o Tâmega. Salve-se Amarante.

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